Contexto: Módulo de Estoque e Custos do Protheus. Rotinas e tabelas citadas são as do padrão; o uso de controles como lote, endereço e WMS muda o fluxo — confira a documentação da sua release.

O inventário termina, a contagem não bate com o sistema e começa a caça ao culpado: o almoxarifado diz que o sistema está errado, a TI diz que o sistema só reflete o que foi lançado, e a contabilidade quer saber qual número vai para o balanço. Enquanto isso, a diferença é ajustada — e reaparece no inventário seguinte.

Divergência de estoque quase nunca tem uma causa única. Este artigo organiza as origens mais comuns no Protheus e propõe uma ordem de investigação para encontrar a causa antes de simplesmente acertar o saldo.

Primeiro: qual saldo está divergente?

No Protheus, “saldo” pode significar coisas diferentes, guardadas em tabelas diferentes. Antes de comparar com a contagem física, confirme se os saldos do próprio sistema estão coerentes entre si:

Visão Saldos Movimentos
Físico e financeiro por armazém SB2 (saldos) e SB9 (saldos iniciais) SD1 (entradas), SD2 (saídas), SD3 (movimentos internos)
Por lote / rastreabilidade SB8 (saldos por lote) e SBJ (saldos iniciais por lote) SD5 (movimentos por lote)
Por endereço SBF (saldos por endereço) e SBK (saldos iniciais por endereço) SDB (movimentos de distribuição)

Quando o produto controla lote ou endereço, o saldo do armazém precisa bater com a soma dos lotes e dos endereços. O relatório de Conferência de Saldos (MATR282) compara essas três visões e aponta o tipo de diferença — inclusive quantidades ainda pendentes de endereçamento.

Se o sistema não concorda consigo mesmo, nenhum inventário vai bater. Resolva primeiro a coerência interna dos saldos, depois compare com o físico.

Causa 1: movimentos lançados fora de ordem ou fora do período

O saldo do sistema é o resultado da sequência de movimentos. Lançamentos com data retroativa — principalmente em período já fechado — alteram o histórico e geram diferenças difíceis de rastrear.

O que verificar:

  • Movimentos com data anterior ao último fechamento de estoque.
  • Documentos de entrada incluídos com atraso, mas datados no mês anterior.
  • Estornos e exclusões feitos depois do fechamento.

Como prevenir: respeitar o calendário de fechamento e restringir lançamentos retroativos por permissão e por parâmetro de data de fechamento.

Causa 2: unidade de medida e fator de conversão

Produtos comprados em uma unidade e consumidos em outra — caixa e unidade, quilo e grama, rolo e metro — dependem do fator de conversão cadastrado no produto. Um fator errado, ou alterado com movimentos em andamento, gera diferenças que crescem a cada entrada.

O que verificar:

  • Se o fator de conversão do produto corresponde à embalagem real.
  • Se houve alteração de fator recentemente.
  • Se as contagens físicas foram feitas na mesma unidade do saldo.

Causa 3: documentos parados no meio do caminho

Nem todo documento atualiza o estoque no mesmo momento. Uma pré-nota ainda não classificada, por exemplo, não movimenta saldo — mas o material já está fisicamente na prateleira.

O que verificar:

  • Pré-notas de entrada pendentes de classificação.
  • Transferências entre armazéns ou filiais iniciadas e não concluídas.
  • Quantidades recebidas aguardando endereçamento.
  • Materiais em poder de terceiros (remessas para beneficiamento, conserto, demonstração).

Esse é um dos casos mais comuns de “diferença” que, na verdade, é apenas diferença de tempo: o físico e o sistema estão olhando para momentos diferentes do mesmo fluxo.

Causa 4: produção e requisições automáticas

Em ambientes com produção, os apontamentos podem requisitar componentes automaticamente, com base na estrutura do produto. Se a estrutura não reflete o consumo real — perdas, substituições, quantidades ajustadas na prática —, o saldo sistêmico dos componentes se afasta do físico a cada ordem apontada.

O que verificar:

  • Se a estrutura dos produtos está atualizada.
  • Se perdas e refugos são apontados.
  • Se substituições de componentes são registradas como tal.

Causa 5: falhas de processo, não de sistema

Por fim, as causas que nenhuma configuração resolve sozinha:

  • Saídas físicas sem documento — empréstimos, amostras, consumo interno “para lançar depois”.
  • Recebimento físico sem conferência contra o documento fiscal.
  • Mais de um produto cadastrado para o mesmo item físico.
  • Contagens de inventário feitas com o armazém em movimentação.

Essas causas exigem regra de processo, treinamento e, às vezes, controle físico de acesso ao almoxarifado.

Uma ordem prática de investigação

  1. Coerência interna: confira saldo do armazém × lote × endereço (Conferência de Saldos).
  2. Pendências: pré-notas, transferências, endereçamento e poder de terceiros.
  3. Movimentos do período: retroativos, estornos e exclusões após o fechamento.
  4. Cadastro: unidade de medida, fator de conversão e duplicidade de produtos.
  5. Produção: estruturas e apontamentos dos componentes divergentes.
  6. Processo: saídas sem documento e falhas de conferência.

Só depois dessa investigação vale registrar a contagem e efetivar o ajuste pelas rotinas de inventário. Ajustar antes de entender a causa garante que a mesma diferença volte no próximo ciclo.

Rotinas que ajudam no dia a dia

Rotina Para que serve
Conferência de Saldos (MATR282) Compara saldos por armazém, lote e endereço
Saldo Atual (MATA300) Recalcula o saldo atual a partir dos movimentos
Refaz Acumulados (MATA215) Reprocessa os saldos acumulados dos produtos
Recálculo do Custo Médio (MATA330) Reprocessa os movimentos na ordem correta e grava os custos
Virada de Saldos (MATA280) Gera os saldos iniciais do próximo período no fechamento

Rotinas de reprocessamento podem ser pesadas e afetar custos e contabilidade. Execute em horário adequado, com backup e, de preferência, validando antes em ambiente de testes.

Checklist para o próximo inventário

  • Saldos internos coerentes (armazém, lote e endereço)
  • Pré-notas, transferências e endereçamentos pendentes resolvidos
  • Movimentos retroativos e estornos do período revisados
  • Fatores de conversão conferidos nos itens mais divergentes
  • Estruturas de produção revisadas nos componentes com diferença
  • Armazém sem movimentação durante a contagem
  • Causa de cada ajuste relevante registrada

Divergência de estoque é, antes de tudo, um sintoma. Quando cada ajuste vem acompanhado da sua causa, o inventário deixa de ser um evento de correção e passa a ser uma ferramenta de melhoria do processo.

Referências

  1. TDN — Boletim técnico Conferência de Saldos (MATR282)
  2. TDN — Performance das rotinas de fechamento de estoque